O jóquei

Perto das três da manhã, acordei com os gemidos do vizinho da frente. Acendeu a luz e vi-o claramente. Pouco mais de metro e meio de gente, carapinha grande, barba farta e densa já com zonas grisalhas, dois rasgos nas orelhas com uns três centímetros cada e magro. Parecia assustado. Levantei-me e perguntei-lhe se estava bem sem que me respondesse algo que me fosse perceptível pelo que limitei-me a ligar-lhe a televisão pois percebi que não conseguia dormir.

Quando acordei, umas horas mais tarde e com as enfermeiras a medirem-nos os sinais vitais, cumprimentei-o e, ao fazê-lo, dei início a uma grande conversa, dentro do possível, com ele. Era jóquei e encontrava-se no hospital porque tinha tido uma queda com o cavalo, provocando-lhe a fractura da clavícula. Queria ir embora do hospital porque andavam atrás dele, quando adormecia. Sentia umas mãos a puxarem-no para fora da cama e várias mãos a agarrarem-no pelo corpo todo. Repetiu-o inúmeras vezes. Que ouvia vozes mas Deus é que evitava que as mãos que o agarravam o levassem. E dizia qualquer coisa em zulu, provocando alguns sorrisos no vizinho do lado. Não parava, sempre de um lado para o outro, aproveitando para insistir sobre a necessidade de sair urgentemente do hospital cada vez que uma enfermeira por ali passava. E repetiu-mo diversas vezes, olhando para a rua, enquanto eu estava sentado à janela.

Dormia serenamente quando saí do hospital.

2 Respostas to “O jóquei”

  1. Emi鬥 Says:

    Mas estava ali só por ter caído? Não vai ser tratado «do resto»? É um pouco assustador porque implica bastante sofrimento.

  2. miguel Says:

    Não Emiéle, estava mesmo na área de traumatismos. Clavícula partida. O resto não é tratável porque tem muito mais a ver com crenças tradicionais do que qualquer outra coisa.

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