Bafo de eucalipto

A época das chuvas estava no seu pleno, durante o verão moçambicano, tórrido e húmido como é característico de Cabo Delgado. Para além da roupa que se colava ao corpo assim que íamos para a rua, sensação apenas vivida anteriormente em Macau, foi lá, em Pemba, que pela primeira vez vi relâmpagos horizontais. Algo de extraordinário. A chuva a deslocar-se na nossa direcção proveniente do outro lado da baía, o estrondo dos trovões. Ahhhhhhhh. A água que escorria a grande velocidade pela rua principal da cidade, do palácio do Governador até ao cinema ao ar livre ou à feira.

Naquele fim-de-semana, tínhamos ido almoçar ao Santos. A minha, foi a última vez que lá fui. Estava eu, o U., o C. e o M., cliente que tinha vindo de Maputo. Uns camarões deliciosos, bem regados, no tasco dele na rua principal da baixa, não muito longe do Niassa Comercial, do Claudino e tio, com as suas máquinas de calcular metálicas e um manípulo que ora girava para a frente ora para trás. Era lá que nos abastecíamos de mercearias, regra geral. Aquele foi mesmo o meu último almoço no tasco do Santos depois de ter ido à casa-de-banho e visto onde, como e por quem estavam a ser feitos os camarões…Nesse mesmo dia, vomitei o almoço todo acompanhado por uma diarreia como há muito não tinha. A mala que tinha levado de Portugal ia, pela primeira vez, dar-me um jeitaço dos grandes. Toca de tomar Ultra-Levure e Dimicina, para ver se a coisa acalmava. Qual quê? Estava cada vez pior, com a febre a não parar de subir.

A J. chegou já perto do fim do dia, anoitecido umas horas antes. Encontrou-me já com uma febre altíssima, com fortes suores, vómitos, mesmo com o estômago vazio, diarreia e fortes dores em tudo quanto era sítio. Alarmada com o estado em que me encontrava, fez-me companhia toda a noite, colocando-me, de tempos a tempos, toalhas com gelo na cabeça de modo a tentar controlar a temperatura que nem com paracetamol lá ia. Foi o maior febrão que tive e uma das piores noites da minha vida. Consegui encharcar uma cama, já não via bem e as articulações doíam-me todas, acompanhadas de uma cabeça que só me apetecia arrancar. Para a J. não havia dúvidas. Nem para a médica francesa dos Marins Sans Frontiéres que, assim que me viu, fez logo o diagnóstico: malária. O teste no hospital serviu apenas para confirmar a forte suspeita. Positivo, com uma cruz. De imediato, deram-me a dose única de Fancidar. Um alívio!

Para ajudar na rápida recuperação, a J. convenceu-me a fazer um dos tratamentos tradicionais. O bafo de eucalipto. Depois de encontrada a árvore na cidade, ferveram uma panela cheia de água e folhas de eucalipto. Todo nu, com a panela destapada entre as pernas abertas e um cobertor grosso a cobrir-me por completo, tive que inalar durante, o que me pareceu na altura, um longo período de tempo os vapores escaldantes que saíam da panela. Passado o tempo adequado, descobriu-me e levou-me para a banheira onde me deu banho com uma toalha encharcada na água da panela. Demoradamente, a J. lavou-me o corpo todo, com particular destaque para as articulações. Uma a uma, massajou-me com vigor todas elas. Parecia um homem novo, quando me deitei, ao lado da J..

8 Respostas to “Bafo de eucalipto”

  1. Isabela Says:

    Belíssima história.
    O eucalipto cura tudo menos a morte, pelo menos é o que a minha mãe diz, que é muito dada a mezinhas.
    Acho que a gente não aguentaria saber o como, onde e por quem.

  2. Ulisses Pereira Says:

    Mas foram mesmo todas as articulações? Também as extensões?

  3. miguel Says:

    LOL, chefe… Este blog também é lido por criancinhas. Tive que amenizar a coisa…

    Isabel, e bem verdadeira :)

  4. ac Says:

    vá lá que terminou bem a história… eu já estava a ficar nauseada com tanto vómito, diarreia e febre ;)
    Por cá esses bafos de eucalipto servem para aliviar as dificuldades nas vias respiratórias, mas olha que com a descrição final parece que tiveste foi um tratamento de “beleza completo”.
    Beijinhos

  5. miguel Says:

    Ó se foi, até fiquei sem a celulite toda, rugas e impurezas cutâneas. Um must. Recomendo-te vivamente! :P

  6. ac Says:

    celulite? Rugas? naaaaa só se fôr pelas impurezas cutâneas porque o ar da cidade dá cabo da pele (cof, cof, cof)

  7. mph Says:

    marins sand frontieres…? a ideia deveria ter sido ver um médico e não um marujo. Mas como a questão deveria também envolver enjoos, quem melhor que um marujo? :D

    Achas que os eucaliptos também ajudam joelhos inflamados?

    Toma cuidado contigo, o joelhinho é para ser poupado, para lhe ser dado tempo de recuperação e o desporto para essas coisas é a bicicleta…. Ah, e uns anti-inflamatórios com qualquer coisa para não teres dores não te vão matar de certezinha absoluta, só te farão correr o risco de sentires melhor, num achas…?

    Beijinhos da mamã suplente :D

  8. miguel Says:

    A diferença com os médicins é que estes tinham um barco com o qual se deslocavam no norte de Moçambique ;) Pessoal fantástico.

    O joelhinho, é. Há-de ir. Beijinhos pá! :D (mamã? lollllllll)

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