África na berra

Depois de décadas de estagnação da grande maioria das economias do continente africano, têm surgido cada vez mais, nos tempos mais recentes, histórias de sucesso relativo quanto à viragem da página do subdesenvolvimento. Se assim os governos o quiserem e se as condições de mercado o permitirem. Se, inicialmente, o reescalonamento e/ou perdão (parcial ou não) da dívida externa de muitos destes países permitiu-lhes reafectar recursos financeiros, actualmente vive-se um verdadeiro boom de bonança proporcionado pela forte subida das cotações internacionais das matérias-primas.

Se a Zâmbia estava numa rota descendente devido à forte queda das cotações do cobre a partir de 1975, a espectacular subida de $3.270/ton em Janeiro de 2005 para $8.009/ton em Maio de 2006, sendo o terceiro maior produtor mundial, permitiu ao pais olhar o futuro de forma diferente. Baixa inflação (<10%), redução da dívida interna e externa, apreciação da moeda e aumento do investimento estrangeiro, criaram condições para uma melhoria substancial da actividade económica. Simultaneamente, e de modo a reduzir a dependência do cobre, a Zâmbia tem incentivado a produção de outros recursos minerais como o níquel, urânio, ouro, diamantes, zinco e cobalto.

No mundo do petróleo são igualmente de assinalar importantes desenvolvimentos. Para além dos já conhecidos casos da Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe, o mais recente, com importantes reservas a serem descobertas, é o Uganda. De assinalar igualmente a forma excepcional como evoluíram alguns indicadores da economia nigeriana. Défice orçamental de 1,1%, dívida pública nos 28,3% do PIB e, mesmo assim, pessoas a morrer para roubar algum combustível…

No extremo oposto está o expoente máximo da estratégia mais correcta rumo ao desenvolvimento sustentado está o sempre surpreendente Zimbabwe, do Mugabe. A UE pretendia emprestar €3 milhões, por forma a evitar o fim da indústria de café naquele país, condicionando a sua concessão à interrupção dos “ataques” às fazendas produtoras de café. A proposta foi liminarmente recusada pelo governo zimbabweano. Das 180 fazendas de café existentes em 2000 apenas sobram 13, três das quais receberam uma nota oficial em Setembro para serem abandonadas. A produção de café no Zimbabwe caiu de 18.000 toneladas/ano em 2000 para menos de 500 toneladas/ano em 2006. Cá para mim, suponho que o Mugabe não deve gostar de uma boa bica.

Tudo isto tem o seu interesse, residindo o maior não só no surgimento da China e Índia como novos players nos mercados de commodities mas, sobretudo, pela transferência de grandes fundos dos mercados cambiais para os de commodities por parte da indústria de hedge funds. E quando esta bolha rebentar?