Os guardiões do kemalismo

Como não poderia deixar de ser, os militares vieram a terreiro afirmar alto e bom som o seu profundo desagrado pelo rumo que o país está a tomar, aumentando substancialmente a crise institucional por que passa a Turquia actualmente.

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Depois de ter ganho as eleições de 2002, com apenas 34,28% dos votos garantindo 363 dos 550 assentos parlamentares, ie, 2/3 do parlamento (!)(só os partidos com mais de 10% dos votos têm representação parlamentar), o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) de Erdoğan não só governa e tem a presidência da assembleia da república como pretende agora eleger um destacado dirigente do partido para a presidência da república. A [quase] total concentração de poderes neste partido tem estado na origem das fortes reacções que, provenientes de diversos sectores, se têm feito sentir nos últimos dias. É interessante enquadrar esta luta pelo poder desencadeada pelo AKP, partido conservador de direita e islâmico moderado, na Turquia secularista de Kemal Atatürk.

O legado de Kemal Atatürk, pai da Turquia moderna, não deixa de ser extraordinário pela audácia com que implementou reformas de fundo que perduram até hoje. Algumas das que implementou nos anos 20 e 30 do século passado:

1. Abolição do Califado em Março de1924;
2. Encerramento das escolas teológicas;
3. Substituição da Charia por legislação baseada no sistema legal suiço e adopção dos códigos penal italiano e comercial alemão;
4. Interdição do uso do véu pelas mulheres e incentivo à sua participação no mercado de trabalho;
5 . Substituição, em 1928, do alfabeto árabe por um latino modificado, aproveitando para eliminar vocábulos árabes e persas da língua substituindo-os por novas palavras turcas;
6. Abertura de escolas de belas artes, repondo a liberdade artística a turcos e turcas incluindo a representação visual de formas humanas, banido pelo Império Otomano;
7. Fim da proibição islâmica do consumo de álcool;

Por tudo isto, e face ao que tem vindo a acontecer na Turquia com algumas tentativas de islamização da sociedade, as forças armadas turcas alertaram, em comunicado, que “qualquer tentativa de pôr em causa o secularismo da Turquia fará com que as Forças Armadas respondam abertamente afirmando o seu posicionamento quando necessário. Que ninguém tenha dúvidas sobre isto”. Mais claro é impossível…

Enquanto europeu, não deixo de interrogar-me se devemos temer este tipo de evolução tendo em consideração que, também na Europa, existem (ou existiram) partidos cristãos no poder. Por outro lado, algo que me provoca alguma reflexão prende-se com a seguinte questão: estará a Europa a expandir-se para oriente ou o contrário?

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Todos pela Turquia! (sem dúvida…)

2 Respostas to “Os guardiões do kemalismo”

  1. catarina Says:

    O Prof. Marcelo também partilha as tuas preocupações. :)

  2. miguel Says:

    LOL!

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