Megalex

O Bispo Vermelho ia orientando e fiscalizando a procissão. Tudo tinha que correr bem, invariavelmente. Há já alguns anos que a organizava e não seria desta vez que algum peão mais acelerado estragaria o que planeara ao longo de todo o ano. Chegou mesmo a adquirir, numa das suas inúmeras viagens, um par de patins bicudos (apesar de ser bispo, gostava de andar na moda), tamanho 44,  para melhor percorrer os 700 metros de fiéis que preenchiam as ruas e assim garantir o sucesso da sua missão. Conhecia bem os paroquianos da sua diocese, mas nunca fiar. Até porque, nas primeiras que ajudou a organizar, ainda com as pernas jovens, era com esforço que corria acima e abaixo pelas ruas cheias de quilómetros de fiéis que acorriam em massa à procissão. Nos bons velhos tempos… Diziam os acólitos mais servis que era uma crise de fé temporária e que um qualquer sinal divino acabaria por aparecer, mais cedo ou mais tarde. Naquela noite, quem não decidiu esperar pelo sinal divino foi o próprio bispo que, perante o mutismo dos paroquianos, decidiu estudar a fundo um manual que adquirira juntamente com os patins: Megalex.