Kafka passou por cá

Ou de como a descolonização (e subsequente independência) não foi suficiente para promover a reforma e necessária desburocratização do extremamente ineficiente aparelho do Estado. São enormes os obstáculos com que se depara o comum mortal quando tem necessidade de realizar actos tão simples como a obtenção do livrete de uma viatura e do respectivo registo da propriedade. E o que dizer da renovação do visto de trabalho? Entre tantos outros…

Das situações que mais me espantaram – excepção feita ao enorme pesadelo que constitui uma simples renovação de um VT – é a que diz respeito à legalização de uma viatura. A título de exemplo, uma empresa adquire uma viatura, já matriculada e tal, pronta para circular mas, sem livrete e título de propriedade. Isto acontece porque circula com modelo O e uma declaração do fornecedor a autorizar o uso da viatura por parte do cliente. Claro que entretanto a viatura deveria ter sido inspeccionada. Mais um tormento já que obriga a marcação da data da inspecção na Direcção Nacional de Viação e Trânsito. Uma vez resolvido este passo, obtém-se um verbete provisório, até à emissão do livrete, o qual deverá vir acompanhado de uma guia para entrega na Conservatória do Registo de Propriedade Automóvel, conjuntamente com alguns documentos, para se obter o respectivo Título de Registo de Propriedade Automóvel. O documento em si é todo último grito, hi-tech. O problema é mesmo obtê-lo. Enquanto se aguarda pelo mesmo é entregue ao pobre coitado do feliz proprietário um recibo que substitui, para todos os efeitos legais, o título pelo prazo de 240 dias (8 meses!) o qual, na maioria dos casos, não é suficiente para que seja emitido o título… Mais 240 dias… E por aí adiante. Numa cidade em que são registados 10.000 novos veículos por mês, uma conservatória com 2 guichets é capaz de não ser suficiente para atender a tanta procura.

E dos VTs? Outra situação labiríntica. Os prazos raramente (nunca?) são cumpridos. De tal forma assim é que recentemente, a propósito de uma reunião de embaixadores de diversos países aqui acreditados e o governo através do Ministério das Relações Exteriores, a questão dos vistos foi profusamente abordada.

E por aí fora, por aí fora, por aí fora…

8 Respostas to “Kafka passou por cá”

  1. catarina Says:

    Não vejo assim uma grande diferença, tirando os prazos…os portugueses deviam exportar o seu sistema burocrático, dava doutoramentos.

  2. miguel Says:

    Bem me parecia… Mais um Cristóvão Colombo! Também Kafka, afinal, era português… :ppppppppppppp

  3. ac Says:

    com sorte o carro “morre” antes de conseguires obter os documentos;)
    (agora não precisas de desesperar e invocar Kafka)

  4. pp Says:

    LOL o Chefe do blog voltou!!!! la’ se foi o outdoor…
    estamos sempre a aprender, para ter o TRPA mais rapido basta plastificar o recibo, ao fim de 280 dias e’ so’ ir buscar o referido pq nao podem carimbar no plastico… easy :ppp

    [sempre de prata :)]

  5. miguel Says:

    ac, foi exactamente o que eu disse. O carro entretanto já foi abatido do património e andamos nisto…

    pp, voltei e, como vês, sem grande humor LOL! Hummm mas que grande dica que me deste! Estás interessada nalguma avença :pppppppppppp

  6. pp Says:

    Chefe do blog, nem avencas, nem part-time e sou anit-comissoes o que ja’ me fez ganhar uns certos “odios de estimacao”. Quanto a dica, experimentei e deu resultado… :ppp

    (pela primeira vez acordei de mau humor… deve ser do tempo)

  7. Miguel Says:

    Ah! Também moras longe! LOL!

    (o tempo está mau, está. Tá um frio! brrrrrrrrrr)

  8. RiBa Says:

    Oh Chefe, isso não será exagero? Tanto tempo para os documentos da viatura e renovação do Visto de Trabalho? :D

    E pagar uma multa? Primeiro o bendito do agente fica-nos com a carta de condução e dá-nos aquela folhinha mal rasgada, porque toda a gente sabe que rasgar pelo picotado só o papel higiénico de folha quadrupla e com odor de hortelã da ribeira acabada de colher, depois temos que ir à Mutamba (entrega-se a multa, recebe-se um recibo, vai-se pagar no guichet ao lado, recebe-se outro recibo, volta-se ao primeiro guichet e agrafam-se os 2 recibos e a multa) e depois, com os três tristes tranches na mão, vai-se pagar lá nos quintos atrás do Shoprite.
    O bonito foi chegar lá e os responsáveis pela entrega dos documentos estarem todos numa palestra. “- Volte mais logo. Aí por volta das 15 e 30.” Um gajo não tem mais nada pra fazer…

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