Ah pois!

Ando farto de conduzir nesta cidade. O inferno sobre rodas a toda a hora e em qualquer sítio. De tal forma assim é que, no outro dia, optei por ir almoçar a pé. Foi giro o passeio. Com muito menos stress (e mais rápido), ocasião para observar as profundas feridas, ainda por cicatrizar, em toda a parte da cidade. Ruas esventradas com cabos e tubos à mostra, lixo encostado a um canto e a água de um cano rebentado (ou de uma qualquer fossa extravasante) com aquela cor esverdeada e odor ímpares. Oportunidade igualmente para observar mais de perto os que se encostam junto aos carros na ânsia de algo venderem, os miseráveis no lixo à procura de algo ou encostados, rasgados, sujos, doentes, com olhar perdido e a mão estendida, não vá cair algum kwanza distraidamente na sua direcção. Direcção para a qual ninguém olha. Passa. Sempre apressadamente. Aqui ou em Lisboa, não interessa. Interessa sim, isso sim, chegar e depressa para onde se vai. Sai da frente quem não é gente. Como este (e os outros também). Os malucos, despernados, desbraçados, deslavados, descamisados, despidos sim, de tudo. Ei camarada! Força aí! Amanhã!… Assim lho dizem todos os dias quando, encostado aos vidros pede com os olhos porque as mãos estão nas muletas. O amanhã que nunca acontece. A esperança no futuro melhor, imediato, porque o outro… o outro ficou lá no mato juntamente com o resto…

Ah e já agora aproveito para dizer que o Miami já tem wireless para os gadgetistas encantadores de damas. Bora?

5 Respostas to “Ah pois!”

  1. catarina Says:

    Este teu texto dói.

  2. Kianda Says:

    Pois … demorei um tempo a pensar se deixava aqui algum comentário … eu almoçava todos os dias na Baixa e ía sempre a pé, bem como o café a meio da manhã tb era tomado na Mensagem (que nos meus 18 anos era Livraria) e realmente só nesses “passeios” a pé em passeios que são abertos e depois não são fechados, se tem ainda mais contacto com um patamar de miséria humana e de feridas que não sei se serão cicatrizadas. A zona do Pelourinho tem uma fachada (completamente a cair ou caída mesmo) que eu acho linda mas onde tu encontras crianças deitadas num sono tão silencioso que até tens medo de saber se algum dia vão acordar …

    P.S. E Miguel, se gostas de adrenalina, experimenta fazer, da próxima vez, esse teu passeio, de saltos altos …

  3. ac Says:

    Os passeios a pé fazem-te bem, não fosse a facada na coxa e aconselhava-te a ires passear muitas vezes para produzires textos com esta potência de sensações!

    p.s. desculpa a minha incapacidade para igualar a tua escrita;)

  4. miguel Says:

    Bom catarina, foi só uma descarga… Moçambique, a este nível, era mais “misericordioso”. Havia pelo menos um dia na semana em que os desgraçados entravam na cidade para pedir a esmola e recebiam-na. Era a 6ª feira. Nas áreas de influência islâmica, isto não falhava.

    LOL Kianda, de saltos altos? Imagino, deve ser bonito deve. Quanto ao resto, sabes, é uma catástrofe cuja dimensão acaba por passar completamente despercebida pela grande maioria mais preocupada com a sua vida totalmente stressada. Mas que já vi coisas impressionantes, já. Em frente aos Correios, no outro dia, um velho com um buraco na canela em forma de círculo com uns bons 4cm de diâmetro e as moscas nele, com o tipo a comer o que ficou nos ossos de frango apanhados no lixo. Sinceramente, não vomitei porque já tenho um estômago forte mas isto é completamente atroz. Estas pessoas estão completamente entregues a si próprias.

    Oh ac, qual incapacidade? Antes fosse isso, resolvessem-se este e tantos outros assuntos onde a injustiça e a exclusão pontificam.

  5. Cisco Says:

    A realidade na terra e’ esta, agora a questao e’ como e’ que vamos tirar o povo desta posic,ao para uma melhor?

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