14 850%

Foi a taxa de inflação no Zimbabwe no passado mês de Outubro. Já a mensal fixou-se em 135%, ie, os preços aumentaram em Outubro qualquer coisa como 135% comparativamente ao mês de Setembro o que dá uma taxa de inflação anual, mantendo-se este registo nos próximos 12 meses, de 2 836 706%.

Uma vez mais, há que colocar a questão. Como foi (é) possível?

No passado dia 11 de Novembro, no Zimbabué, celebrou-se o 10º aniversário do que ficou conhecido como “sexta-feira negra”. Nesse dia o dólar zimbabweano desvalorizou-se 72% contra o dólar americano e a bolsa uma queda de 46%. Números impressionantes. Qual o catalizador? A decisão do governo zimbabweano de ceder às pressões dos antigos combatentes que saíram para as ruas a reclamar uma compensação financeira pelo seu papel na luta de libertação nacional. Robert Mugabe deu então ordens para se pagar a cada um dos antigos combatentes a soma de Z$50.000 ($1.315 à data. Hoje, os mesmos Z$50.000 valem $0,50 (mercado negro) ou $1,67 (câmbio do Banco Central do Zimbabué)).

Daí em diante, o mundo assistiu a todo um conjunto de situações inesperadas e que encheram os noticiários do mundo inteiro… Antes disso, já em Moçambique se assistia, em 1998/9, ao definhar do Zimbabwe. Sofreu, em particular, com a situação o corredor da Beira, em termos de movimento de bens e mercadorias. De tal modo que, numa das visitas à cidade da Beira, penso que em 1999, num almoço na casa de responsáveis pelo pipeline de combustível para o Zimbabwe – protegido durante a guerra civil por soldados zimbabweanos – os mesmos dizerem que tinham cortado o abastecimento por incumprimento nos pagamentos e uma dívida já então colossal.

Mesmo assim, alguns investidores orientais acham o Zimbabwe interessante para investir como é o caso da China e da (boca aberta) Coreia do Sul. Graças à joint-venture criada entre zimbabweanos e sul-coreanos, Robert Mugabe inaugurou no passado dia 15 de Novembro, quinta-feira, a primeira unidade de produção de biodiesel do país. Claro que a ocasião foi aproveitada para mais retórica política cujo teor não difere muito daquilo a que nos habituou Robert Mugabe desde que ensandeceu.

Por tudo isto e pela verdadeira catástrofe humana que se tornou o Zimbabwe, sem que se verificasse qualquer cenário de guerra, ainda há quem pense – os lambe botas continuarão a existir enquanto houver homens na terra – que o actual presidente do país deverá permanecer no posto até morrer.

Miguel

4 Respostas to “14 850%”

  1. miguel A. Says:

    Deve-se analisar a questão sob outro prisma: o que vão os chineses e Sul-Coreanos lá buscar? sim, pq não há almoços grátis…

  2. Mario Says:

    Outra pergunta que me faço é se algumas medidas não terão tido apoio popular no início? Até que ponto em Angola caso as eleições viessem a ser mais ou menos legítimas, um populista que quisesse pôr fora os estrangeiros não teria um eleitorado aberto a esse tipo de mensagem?

    O fenómeno Chavez passou-se e ainda se passa num dos países mais ricos do continente americano. Este cenário político de início de século está muito confuso…

  3. miguel Says:

    lol miguel A…. a velha máxima do só se dar um chouriço para se tirar um porco. Mas essa questão nem era para mim a mais importante desta abordagem. O que é para mim relevante é a guerra interna no MDC, depois de tanta luta, a ausência de outras alternativas e haver quem queira, com o apoio mais que provável da Zanu-PF e de todos os que beneficiaram com as “reformas”, que o actual presidente se eternize no poder.

    Mario, talvez. Mas as realidades dos dois países não são comparáveis. Quer ao nível do povo, quer ao nível da liderança – aqui sim uma grande diferença – quer à própria realidade sócio-económica de Angola vs. Zimbabwe. De qualquer modo, é bom relembrar a resistência que houve e a forma como foi “esmagada”. Não morreram apenas farmeiros brancos no Zimbabwe… Quando estive lá em 1999, a preocupação com a situação era já enorme. Entre estrangeiros e zimbabweanos, as perspectivas do futuro eram já, na altura, sombrias. Mal sabiam as pessoas com quem lidei que o pior ainda estaria para vir. A grande maioria já não se encontrará, decerto, no Zimbabwe. O fenómeno Chavez não passa de um epifenómeno, com alguma dimensão mediática e que nos choca por ser no nosso tempo de vida. Basta estares atento ao que se escreve e divulga para perceber qual a democracia de Chavez. Contudo, é bom que se diga igualmente que a situação tal como estava na Venezuela era insustentável daí o grande apoio que tem.

  4. pp Says:

    razao tinha a outra senhora quando dizia:
    “no hay que dejar que un solo hombre se perpetue en el poder, porque se acostumbra a mandar y el pueblo a obedecer”

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