Da cooperação

Por alguns minutos este assunto mereceu a nossa atenção. À mesa, funcionários de organizações internacionais manifestavam perplexidade perante a diminuta expressão da Cooperação Portuguesa quer em Angola quer em Moçambique. O mesmo não se passa quanto a uma Espanha ou Itália (para não citar uma França). Se fiquei surpreendido pela nossa reduzida presença em Moçambique na década de 90, ainda mais fiquei pelo facto de se passar o mesmo em Angola. A diplomacia portuguesa sempre foi tímida em diversos domínios, como que a expiar muitos dos pecados que terá cometido em séculos de colonialismo. Ou não terá nada a ver com isso?

A atestar a dimensão da Cooperação Portuguesa por esse mundo fora, com destaque para os países lusófonos, fica o link para os dados mais actualizados. O onde estamos e quantos somos é algo confrangedor. 7 cooperantes em Angola e 9 em Moçambique. Não estranho assim que nunca os tenha visto por aí (também vejo mal, verdade seja dita).

O dinheiro não pode justificar tudo.

Miguel

23 Respostas to “Da cooperação”

  1. Mario Says:

    Mas deve haver para aí alguns nas ONG’s e nas Nações Unidas… não muitos.

    O ano de pausa aos 18 anos para viajar e trabalhar como voluntário é extremamente anglo-saxónico, o voluntariado em Portugal ainda é embrionário, a presença de ONG’s em Portugal com presença mundial não é significativa. Aliado a uma inércia dos organismos públicos que praticamente só cooperam na educação (mas mesmo assim quem não conhece um docente que não tenhas estado em Timor ou Cabo-Verde?) facilmente se percebe a falta de portugueses nesses organismos.

    Cooperar em Angola é um exercício frustrante para não dizer mais. Para uma ONG que tem liberdade de implementar programas no terreno até pode valer a pena o esforço, mas para a maioria das organizações humanitárias que estão presas ao governo local para poder fazer o que quer que seja… frustrante é uma palavra leve.

    Desde a comida do Programa Alimentar Mundial que era roubada por funcionários, aos altos cargos que extorquiam dinheiro a ONG’s, aos fundos para desenvolvimento sistematicamente desviados para outros fins, às dezenas de carros oferecidos que passados semanas já não circulam, às escolas construídas que nem professores têm…

    Desculpem o desabafo, o que vi em Angola chega para uma vida de desilusão. Era inocente :)

  2. miguel Says:

    Mario, esses não contam. Se formos por aí, a diferença ainda será mais chocante.

    Bem, isto não tem nada a ver com os 18 anos. É muito mais do que isso, como compreenderás. Aliás, não conheci nenhum estrangeiro a trabalhar neste tipo de missões que tivesse 18 anos…

    Mario, não tenho condições para corroborar ou refutar o que dizes relativamente a Angola. Das conversas que mantive com alguns estrangeiros a trabalhar para organizações internacionais, não me pareceu ser esse o sentimento…

    Tanta coisa Mario. Terá mesmo sido tudo assim?…

    Ainda não viste nada Mario. Se isto te desiludiu então eras mesmo inocente, muito inocente… lol

  3. jpt Says:

    Vês muito mal … mesmo muito mal
    Assinado: 1/9

    [à noite hei-de vir desancar-te]

  4. miguel Says:

    Tu és um caso à parte jpt ;)

    [cá te espero]

  5. catarina Says:

    (vai ser um combate giro, esse prometido para mais logo :DDD)

  6. Mario Says:

    Eu era bastante inocente, pensava mesmo que do dinheiro dado à UN e às ONG mais ou menos 50% dele chegaria ao destino final. Perdi essa inocência ao perceber que o verdadeiro valor concretizado deve ser muitíssimo reduzido.

    As histórias durante a guerra civil foram me relatadas na primeira pessoa e não tenho razões para duvidar, os carros destruídos, as escolas sem professores, funcionários a desviar fundos destinados a orfãos… isso vi com os meus olhos e não foi bonito de se ver.

    Mas estou em crer que o voluntariado está em crescimento em Portugal e que a presença de portugueses individuais nessas organizações já não será considerada fora do normal nos dias que correm. Agora presença oficial? A resposta vem um pouco de encontro à falta de qualidade da diplomacia portuguesa que se discutia por aqui outro dia.

  7. jpt Says:

    Rapidamente porque hoje o tempo nao me abunda mas “o prometido eh devido”

    1. a referencia ao numero de cooperantes (entenda-se, contratados a tempo inteiro pelo IPAD, ex-Instituto de Cooperacao Portuguesa), pode induzir em erro. Com efeito (oops, contra mim falo) a figura do agente tecnico, colocado nos paises para suprir a escassez de recursos humanos habilitados existentes, tem tendencia a decair (eh alias a sua razao de ser, a formacao de quadros nacionais). Neste caso eh normal que em paises como Mocambique isso venha a ocorrer – o numero de cooperantes (no seu sentido literal, nao na metafora “cooperante” para designar estrangeiros) decaiu ao longo das decadas acompanhando a formacao de quadros nacionais. Mas nao so – a figura de “cooperante” esta ligada ah presenca de estrangeiros em missoes varias (e entenda-se, ate militar ou empresarial) com cunho estatal (literal ou implicita, por via de ongs que sao extensoes da actividade estatal do “norte” – nem todas o sao, mas tem formas de interaccao ao nivel do financiamento da sua mao-de-obra). Ou seja, os cooperantes foram durante anos a mao-de-obra da accao estrangeira (Estatal ou estatalmente induzida/enquadrada). Ora nos ultimos 10-15 anos o paradigma e a realidade da presenca estrangeira transformou-se, o cerne (quantitativa, a dimensao qualitativa eh outra materia que nao falo aqui, ou seja, quais as formas necessarias de prover ao desenvolvimento) esta na presenca empresarial. E esta nao emprega cooperantes mas sim quadros ou trabalhadores (a designacao eh sociologicamente conotada)

  8. jpt Says:

    2. o paradigma da cooperacao internacional (em particular a da UE – acordo de Cotonou ex-Lome) mudou (e aqui tambem seria bem discutivel mas nao em coomentario): de ha 10 anos mais ou menos a esta parte o centro da cooperacao deslocou-se da ajuda via programas/projectos (Que apelavam a uma massica presenca de cooperantes no terreno, para implementar os projectos, seja de pequena, media ou grande extensao) para a ajuda orcamental (que apela a poucos cooperantes, e fundamentalmente tecnicos especializados em gestao orcamental ou associados, colocados junto dos aparelhos estatais). Isto relaciona-se (relacionar-se-a) com a visao do state-building (herdeiro, acho eu, da nation-building dos anos 60). Grosso modo acredita-se que a capacitacao estatal passa pelo financiamento directo (ainda que algo vistoriado) do Estado, e que isso induzira boa governacao e desenvolvimento endogeno. Eu acho que tudo isto eh muito discutivel – ideologicamente, sociopoliticamente e pragmaticamente, mas nao no seio dessa discussao que eu encontro o teu post.

  9. jpt Says:

    3. Para alem disso, e isto eh um pouco lateral, ha o peso da cooperacao na economia local. Se em Mocambique ha alguns anos 70% do orcamento estatal era proveniente da ajuda externa eu lembro-me de um responsavel da UE me dizer nos finais de 90s que as dotacoes (e eram enormes) da UE a Angola representavam entre 5 a 6% das receitas de petroleo – nao posso confirmar da veracidade dos numeros, mas demonstram o ja sentido na altura (havia guerra), da dificuldade nesse contexto de induzir modificacoes politicas (good governance, democratizacao, etc – o pacote politico que a UE chama ‘condicionalidade politica” quando faz “ajuda publica ao desenvolvimento”) ou administrativas em Angola – dai tambem a relativa escassez de cooperantes.

    4. como ves ainda nao referi a cooperacao portuguesa em si, mas horizontes nas quais ela se movimenta, com as suas fragilidades institucionais e humanas, e, em particular, com a sua relativa inercia “ideologica”. Ou seja, quando se referem os aspectos que acima esboco eh necessario entender que a cooperacao portuguesa assume alguns relativamente lentos e nao assume outros por razoes estrategicas, legitimas, ou ideologicas, tambem.

  10. jpt Says:

    5. eh facil criticar a cooperacao por deficit de presenca (como o fazes). Mas isso esquece que em alguns contextos ela eh relativamente relevante. Recordo que quando nos cruzamos em Mocambique (ate finais de 90s) Portugal estava na cabeca dos doadores (nao tenho os dados de agora, dado que ja nao trabalho na administracao disto). Em dois anos seguidos fomos os segundos doadores (e isto sem contabilizar os dinheiros de CahoraBassa que o Estado queria introduzir mas a OCDE nao permitia nos rescaldos internacionais que se faziam), e passados alguns anos as posicoes continuavam cimeiras – isto, recorde-se, num momento em que Mocambique era o xuxu da comunidade internacional chegando a receber mais do triplo per capita do que a media africana. Na altura havia bastantes mais cooperantes, eh certo, mas nao eram eles a causa de tanto dispendio (e tinhamos pouca visibilidade, acho, por falta de arreganho pessoal, de instrucoes e de mecanismos de demonstracao)

  11. jpt Says:

    6. ja vai longo (e algo anarquico) o tal “curto” comentario. Mas so mais um ponto: o problema da cooperacao portuguesa tera entao a ver nao com falta de fundos (que acredito menores nos ultimos tempos, mas ainda assim suficientes para o quadro geral de actividades propostas) mas de visibilidade (incapacidade de publicitacao porque incapacidade relativa de coordenacao). E, fundamentalmente, de organziacao centralizadora – nao falo dos ultimos poucos anso, em que nao tenho informacoes sobre o modus faciendi, mas ate ha 3/4 anos era o modelo de descentralizacao estatal que funcionava (cada ministerio, departamento, camara) o que implicava pouca racionalidade, pouca visibilidade, pouca coordenacao, muito dispendio, mas pouca capacidade. Mas actividade – eh nesse sentido que me pareceu necessario afirmar a minha discordancia com o teu post

    7. Finalmente, e talvez ate o ponto mais importante, “ele” ha cooperantes que teem blogs – e a bem do bloguismo ha que os valorizar

    abraco

  12. jpt Says:

    (almoço) – entenda-se, como p.s., que nada disto tem a ver com “voluntariado”. Rigorosamente, a cooperação (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) não é voluntariado, pode usá-lo [para mal dos nossos pecados] por vezes, mas é uma actividade distinta com objectivos distintos.

  13. jpt Says:

    (sobremesa) – conviria perguntar detalhadamente aos dignissimos funcionários das organizações internacionais sobre que números se dignam eles a “lamentar” a falta de cooperação portuguesa = já agora, distinguir entre cooperação multilateral (os países dão o taco e os organismos funcionam) e a bilateral.

    E depois, especulo, saber se esses dignissimos funciaonários não serão da cintura puritana norte-europeia, sempre prontos a desdenharem o ex-colono, disfarçando nessa sanha os propósitos neo-colonos imbuídos da religiosidade desenvolvimentista com que escondem as lições de calvino

  14. catarina Says:

    (caiu-te mal o almoço, portanto, LOL que o tom já está mais agressivo :DDDD ná, eu tou aqui caladinha, só a ver a bola)

  15. jpt Says:

    mero bitoque, mero bitoque – mas confesso que cada vez tenho menos paciência para os “suecos”

  16. catarina Says:

    Sim, caldeirada é quando o Miguel chegar. :D Farto de perfeição e os bons exemplos vindos dos países nórdicos e a arrogância que acompanha a fama? Eu pessoalmente abomino loiros altos, mas isso é já é outro tema.
    Mas já que estás dentro do assunto, explica-me lá porque raio todos os anos vão daqui fornadas de professores universitários fazer umas “feriazinhas” de 3 meses a Timor? Há mais verba para países que estão na moda e mais no coração, aqueles Ai Timor todos de mãos dadas vestidinho de branco a disfarçar o peso na consciência da fuga cobarde para o barco mais próximo e o indígena que se lixe, e/ou esses países acolhem melhor os cooperantes ou são mesmo as pessoas que não estão para ir para Angola e Moçambique?

  17. miguel Says:

    Ora bem jpt, deixa-me ler isto com calma e lá te responderei durante o fim-de-semana… um abraço.

    catarina, lol!

  18. Miguel Says:

    jpt, não me esqueci mas não tive muito tempo. Mas posso desde já adiantar-te que os interlocutores eram latino-americanos. Durante a semana rebaterei (ou não) os teus argumentos. Um abraço.

  19. jpt Says:

    Meu ponto 1 (oops). Vão passar a ser 8… Abraço

  20. pp Says:

    lol jogam mikado voces os dois??

  21. maria Says:

    ahahhahhahahha pp… o que me foste lembrar! O meu 1º jogo foi o mikado! :) E já que estou numa de “lembradura” o 2º jogo foi o jogo da Glória! :)

  22. miguel Says:

    jpt, lamento imenso sabê-lo. Um abraço e espero que fiques bem. Ainda te responderei…

  23. miguel Says:

    1. Ponto altamente discutível. Tenho reservas e dúvidas quanto à conclusão que retiras no que ao decréscimo do número de cooperantes diz respeito. Em quantas situações, mais do que a “substituição” de cooperantes por quadros nacionais formados não imperarão razões de natureza política? Ou terão países como Moçambique formado quadros suficientes para suprir as necessidades nacionais? Quanto à segunda parte do teu primeiro ponto, levar-nos-ia a outro tipo de discussão a qual não enquadro no espírito deste post até porque há inúmeros domínios que não interessam do ponto de vista empresarial.

    2. Como dizes, discutível mas fora do âmbito deste post. Embora seja extremamente interessante e passível de discussão, quanto mais não seja do que conheço actualmente da realidade angolana.

    3. Uma vez mais dá pano para mangas este ponto. Contudo, parece-me que o que é válido para Portugal também o é para os demais países. E, também neste ponto, Portugal demite-se de um papel mais activo, surgindo agora de forma interessante, como broker de iniciativas de terceiros para no seu “espaço natural”, com Angola a destacar-se dos demais.

    4. 32 anos de dramas?

    5. Desconheço os dados jpt. Mas se assim era, a visibilidade era nula. Por onde quer que andasses em Moçambique na época a que fazes referência, vias em toda a parte obras ou instituições com o patrocínio da Cooperação Italiana. Em grande quantidade. Quantos nossos? Na segunda metade da década de 90, os espanhóis entraram em força. E nós? Por onde andávamos? Em Angola, Sócrates foi com grande aparato e até correu na marginal… Foi a única coisa que se viu. Ah e a semana gastronómica no Hotel Trópico. Claro que sempre temos a Galp, a Teixeira Duarte, Soares da Costa, Mota Engil e a TAP. Essas sim, bem visíveis. Mas como dizes, é fácil criticar a cooperação por deficit de presença. A propósito, onde estão os professores que iriam para Angola?

    6. O espírito do meu post era o seguinte jpt. Onde é que nós estamos? Qual o retorno da nossa cooperação? Os outros estão a entrar pelas portas, janelas e até já atravessam paredes. E nós? Quedamo-nos pela discussão de questões metafísicas?

    7. Ora bem, desconhecia-te nessa condição, confesso. O apreço que por ti tenho teve início a partir do momento em que te vi turista proveniente do verdadeiro mato, no local que era para mim o “meu” mato. As questões políticas são e sempre serão impessoais.

    PS – Claro que concordo com o teu ps…

    Resposta à sobremesa: eles manifestaram apenas estranheza pela “ausência” no que seria, por razões óbvias, o nosso “espaço natural” como atrás referi. Até porque, naturais de países da América Central, eles próprios diziam que os seus países contavam com uma forte presença espanhola.

    Um abraço.

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