Excertos

(para mim importantes pois permitem-me perceber melhor a razão de ser das diferentes realidades que encontrei ao passar por Moçambique, Suazilândia, Malawi, Zimbabwe, África do Sul, República do Congo, República Democrática do Congo, Ruanda e, agora, Angola)

“[…] As cidades da África Portuguesa – Luanda, Lourenço Marques, Beira, Lobito, Benguela – estavam entre as mais modernas do continente[…]”

“[…] Em 1960, Luanda, capital de Angola, tornara-se na terceira maior cidade sob a soberania portuguesa, depois de Lisboa e Porto[…] ”

in The State of Africa, p.134

Miguel

11 Respostas to “Excertos”

  1. Miguel A. Says:

    De facto, entre os varios ‘mais velhos’ com que tenho falado ao longo da minha vida, entre aqueles que por motivos pessoais ou profissionais (ou os dois) passaram por África, as cidades ‘capitais’ das ex-colónias Portuguesas eram efectivamente das mais desenvolvidas.

    Todos sabemos que desenvolvimento não é igual a crescimento, por isso coloco a tónica no desenvolvimento.

    No entanto, podemos estabelecer um paralelismo (ou não, no fundo) entre este desenvolvimento e o estado real da ‘Metropole’, essa por seu lado, dos mais atrasadas no continente europeu.

    Muitas duvidas e poucas certezas passados 30 e tal anos após as ‘independencias’, permitem alguns olhares mais curiosos:

    1 – Seria de facto o ‘Salazarismo’ a tolher o desenvolvimento do país, permitindo que, nas ex-colónias, com a existência de uma relativa maior ‘liberdade’, ou pleo menos, abertura, as coisas andassem de forma diferente? celebre a história das ‘colas’, proíbidas na metropole e na África Latina (expressão curiosa, ouvia à pouco num video do ‘Duo Ouro Negro’, ao passar pelo outro site ‘não-oficial do Chefe’) largamente consumidas.

    2 – Seria a prova de que o Português seria de facto o povo Europeu (chamar Europeus puros e duros aos Tugas é, só por sí uma falácia, com tanto sangue Árabe presente no rectângulo naquela altura) que melhor se adaptaria a África, em virtude do calor, das doenças, etc. etc?

    3 – Isto leva ainda a outra linha de pensamento: Se todas as potências Europeias tiveram colónias, pq razão seriam as ‘Portuguesas’ das mais desenvolvidas, se nas metropoles era exactamente o inverso? falta de vontade de investir localmente, como a maior parte das colónias Francesas, Inglesas, Belgas, etc? Relembro queno Congo Belga, após a independência, restavam no país 36 licenciados (todas as áreas somadas) para ‘gerir’ um país enorme.

    Pior ainda, aquando da descolonização, era verdade que, socialmente, organizacionalmente, a Metropole estava mais atrasada do que as suas entretanto ex-colónias, o que levou à situação caricata, de os entretanto regressados (detesto a palavra ‘Retornados’ tanto como a de ‘Expatriado’) quase todos não terem gostado muito do ‘regresso’.

    4 – Verificar-se-ia o caso de, tal como os Estados Unidos, tb uma terra de emigração pura, por excelência, a ‘criatura’ ultrapassar o criador?

    5 – A necessidade aguça o engenho? ou seja, muitas necessidades em Portugal daqueles tempos levaria a que, quando emigrassem, fossem ‘compelidos’ a trabalhar mais e, sobretudo, mais ‘disciplinados’?

    Situação igual aconteceu nos países Europeus para onde se verificou uma maior emigração, tais como França e Alemanha (onde o governo alemão, na década de 50, reconhecendo o esforço que a comunidade Portuguesa dava na altura à reconstrução Alemã, decidiu oferecer uma motorizada à maoir parte dos homens trabalhadores, como forma de se deslocarem mais rapidamente para o serviço, e a mesmo tempo poderem ter maior liberdade de circulação).

    Enfim, algumas disseretações só para espalhar a confusão… e uma perguntinha final:

    Se fizémos tantas coisas engraçadas fora do rectângulo, porque não conseguimos fazer cá dentro o mesmo?

    Cada vez mais dou razão ao tal General Romano que escreveu para Roma que para os lados do Mar havia um estranho povo, que não se governava nem deixava governar lol, mas isso já são outros 500…

  2. pp Says:

    pacheco pereira no publico:
    “Somos especialistas em fazer as melhores leis do mundo e em arranjar maneira de nunca serem aplicadas”
    pois… :p

  3. miguel Says:

    Ui que isto vai dar pano para mangas… entretanto, vou para a praia. Falamos mais logo :D

  4. miguel Says:

    Ó pp, essa frase é do Miguel Sousa Tavares na edição do Expresso deste fim-de-semana lol.

    Miguel A., este blogue não se coaduna com análises mais aprofundadas do que quer que seja. Isso obriga a grandes exercícios lol. Há várias abordagens possíveis ao que escreveste, algumas das quais necessariamente polémicas e sobre as quais não tecerei grandes considerações, por vários motivos. Realço alguns:

    1. Ninguém da minha família viveu em África antes da revolução do 25 de Abril (eu sou a única excepção e apenas a partir de 1995);

    2. Dos meus, tive três tios que aqui combateram (um fez duas comissões em Angola, um em Moçambique e o terceiro na Guiné-Bissau);

    3. Sempre ouvi, ao longo do meu crescimento, as histórias dos nossos ex-combatentes e, raras vezes, dos ditos “retornados” dado não haver pontos de contacto ou, se os havia, eram pura e simplesmente relegados ao esquecimento e subsequente desconhecimento de nós;

    4. Este blog é lido por pessoas que aqui nasceram, viveram durante algum tempo e algumas que daqui nunca saíram;

    5. Por tudo isto, prefiro não tecer grandes considerações sobre determinados aspectos sob pena de poder ferir algumas susceptibilidades quando não é esse o meu objectivo.

    Em essência, este post refere-se tão-só ao forte contraste que senti quando pus os pés pela primeira vez em África. Deu-se em Kinshasa, então Zaire. Foi o meu primeiro cheiro do continente. De seguida o deslumbramento da África do Sul. Finalmente, a primeira investida a sério no continente. Moçambique. Se o choque foi violento, não menos violento foi constatar o que teria sido aquele país antes da independência. E depois vieram os relatos, dos moçambicanos que viveram o antes e o depois. Das múltiplas histórias (e foram muitas) proporcionadas por anos sem internet, televisão por satélite ou sequer uma estrada para sair de uma cidade. Os convívios acabavam sempre por ser enriquecidos pelo relato das memórias, histórias de vida. Ajudava a passar pelo presente, contar o passado sonhando um futuro melhor. De qualquer modo, assim que pude começar a visitar os países vizinhos, comecei a ficar perplexo com o que fui encontrando… as diferenças com o que foi deixado em Moçambique – na altura – e agora Angola são abismais. E isto se tivermos em consideração que vários países por onde passei não terem passado por qualquer cenário de guerra que se assemelhasse a Moçambique (ou Angola).

    Deixando-me de grandes dissertações, há uma ideia que penso sintetizar o que penso de tudo isto e do que foi o [nosso] passado: as ex-colónias eram, para quem cá vivia, a sua terra, a sua casa. O mesmo não se passaria com a maioria dos outros que colonizaram África.

    Quanto a outras questões Miguel A., não tenho a menor das dúvidas que o Salazarismo foi catastrófico para Portugal. Mais valia termos entrado a sério na II Guerra Mundial, termo-nos livre dele e benificiado do Plano Marshall. O problema é que, se calhar, nem eu nem tu estaríamos aqui a discutir neste blog lol.

    O Congo Belga, como bem referes, tinha o estatuto de propriedade privada do rei Leopoldo… E era tratado o território como uma verdadeira coutada. Inenarráveis as barbaridades ali cometidas.

    O facto dos regressados à metrópole não terem gostado nada, tem várias explicações as quais não são difíceis de perceber estando aqui algum tempo…

    “Se fizémos tantas coisas engraçadas fora do rectângulo, porque não conseguimos fazer cá dentro o mesmo?”

    Porque o país está entregue a quem, fora do rectângulo, jamais teria capacidade para desempenhar funções tão elevadas como as que desempenha por aí lol.

  5. Miguel A. Says:

    PS – O meu texto deve ser apenas lido numa perspectiva sociológica, área que gosto muito (apesar de a minha ‘formação não vir dessa área) e limita-se, nesta perspectiva, apenas a dados ‘constatados’.

    De maneira nenhuma pretendo classificar de boa ou má a colonização de Portugal, nem tão pouco a ‘conheci’ para me poder debruçar sobre a mesma, nem pretendo ‘ferir’ a susceptibilidade de ninguém.

    Apenas seguiu no seguimento da tua questão: em 1960, Luanda era uma das cidades mais desenvolvidas de África; o resto, nem quero falar lol.

    Quanto à ultima frase, chefe, era para ser lida com 200 ou 300 anos de retrospectiva, não aos dias de hoje; de facto, partilhamos da mesma opinião nessa ultimo parágrafo… lol

  6. miguel Says:

    Não me querendo debruçar sobre a questão qualitativa da colonização portuguesa, discussão essa interminável e onde jamais se concluirá em qualquer dos sentidos – independentemente de se poder desde já afirmar que nenhuma colonização foi boa – uma coisa é certa, sempre que me disserem num qualquer jantar que nós fomos isto, frito, cozido e assado, defenderei sempre o que é o meu legado, reconhecendo os erros e realçando as diferenças abismais com o que os nossos vizinhos fizeram…

  7. Miguel A. Says:

    Ora nem mais…

  8. RiBa Says:

    Politicamente correctos! Concordo com a maior parte das coisas. Podiam disparar umas opiniões mais rudes pra ver o q se esconde por debaixo dessa carcaça colonialista! :DD TOU A BRINCAR MALTA! Oh, o Chefe sabe.

  9. Mario Says:

    Ando a ler um livro sobre o luso-tropicalismo, o conceito inventado pelos filósofos do regime que tentava provar que a colonização portuguesa era melhor que as outras de forma a garantir a longevidade das colónias portuguesas quando todas as outras potências colonialistas já tinham quase desaparecido.

    Ainda não cheguei a nenhuma conclusão e não sei se chegarei :)

  10. miguel Says:

    Mario, muitos dos que escrevem vieram a África 1 semana ou 2. Ficaram alojados em bons hoteis e fizeram incursões ao “mato” por umas horitas para dizer que lá estiveram…

  11. Mario Says:

    Miguel, esses autores pareco eu :) tive por ai uns mesitos, fui a meia duzia de provincias e agora mando umas postas de pescada :)

    A proposito de uma frase do comentario mais em cima sobre o regime e a WW2, adorei os argumentos da malta que defendeu o nosso ditador como o eleito do programa da RTP, que dizia que ele salvou o pais de uma guerra terrivel… Pois bem, se houve guerra em que deviamos ter participado activamente foi essa!

Os comentários estão fechados.