Medo

Muito medo anda por aí. Pudera, se já nem se pode confiar no vizinho do lado…

Hoje, foi mais um dia do mesmo, com a crise a ganhar uma dimensão cada vez maior e os mercados a derreterem, literalmente. Ninguém diria que o rumo dos acontecimentos pudesse ganhar contornos como aqueles a que se assiste actualmente. Muito se escreverá sobre a grande crise que abalou o mundo durante as duas primeiras décadas do segundo milénio, com epicentro nos EUA e origem no subprime.

O que me leva a escrever tanto sobre isto é que estão a ocorrer factos que são verdadeiramente históricos e raramente vistos ao longo de uma vida. E nós bem no meio dela.

Alguns episódios engraçados vão ocorrendo aqui e acolá. Hoje, por cá, a rádio falou muito sobre esta crise e o seu impacto em Angola. De tal forma foi que a primeira pergunta que me fizeram, no sítio do costume onde vou regularmente há longos meses, foi “e o que é que acha desta crise?”. Explicar o quê?

Há dois dias, encontrei acidentalmente um velho conhecido daqui, lá do norte. Estávamos a trocar impressões e veio à baila a crise. Perguntei-lhe se tinha acções ao que me respondeu afirmativamente. Perante a minha reacção facial, disse-me que não havia problema. Que agora era de se comprar e que o que tinha ia guardar porque não precisava do dinheiro e aquilo haveria de subir. E depois ainda me disse que assinava uma newsletter da DECO e aquilo era porreiro etc e tal. “Bom”, respondi-lhe, “eu, na realidade, tenho 90% do meu a render a taxa fixa!” ao que me disse de imediato “Sortudo!”.

Não resisto a comentar aqui o que se passa em várias frentes, regressando ao título deste post. O medo. Ora o medo, por mais incrível que pareça, tem medição. Curioso não é? Claro que é uma extrapolação abusiva mas interessante. Os mercados norte-americanos desenvolveram há já algumas décadas um índice de volatilidade calculado a partir de um dos índices mais populares, o S&P 500 (as 500 maiores empresas americanas cotadas), designado por VIX (volatility index). Este índice é também designado por índice do medo. Quanto mais alto está, maior a instabilidade e “medo” e/ou “pânico” no mercado. Quanto mais alta a sua leitura, maiores as probabilidades de tempestade. Ora, nos últimos dias, o VIX não tem parado de bater recordes sucessivos acompanhando, inversamente, a queda dos mercados.

Outra consequência do apertar do crédito (e a recessão que já está aí) é termos empresas como a General Motors com uma cotação ao nível de 1958 (em termos nominais…).

Mas o aspecto mais relevante de tudo o que está a acontecer é somente isto: confiança (ou a sua ausência). E tudo o que tem sido feito, de certa forma atabalhoadamente, está a agudizar ainda mais o cenário. Não deixa de ser interessante que mesmo com a descida das taxas de juro, as taxas interbancárias não tenham cedido (para já) e que os bancos comerciais prefiram depositar nos bancos centrais a sua liquidez a uma taxa bastante mais reduzida do que emprestar entre si. Não sei se isto alguma vez aconteceu…

No plano cambial, há alguma “confusão”. Na Islândia, o governo já desistiu de tentar aguentar a moeda e está a desvalorizar de forma assustadora. Se a 31.12.2007, o PIB per capita Islandês era de €48.700, à cotação de hoje seria de apenas €14.700… Uma tragédia…  Também no Brasil, o banco central tem realizado várias intervenções de grande envergadura para “segurar” o real que tem sofrido alguma pressão desde meados de Setembro e uma forte aceleração nos últimos dias forçando estas intervenções.

E, para já, é isto. Amanhã é outro dia! A ideia principal é: está mais barato ir passar férias ao Brasil e pensar numa cabana qualquer em Reykjavik…

Deste lado, dormimos descansados porque toda a nossa liquidez está em kwanzas, aplicado a taxa fixa e que se revelou quer a decisão mais acertada quer a mais apropriada nos tempos que correm, enquanto o preço do barril de petróleo não baixar mais do que foi orçamentado (este é apenas o meu palpite…).

3 Respostas to “Medo”

  1. emiele Says:

    Obrigada, Miguel.
    Como sempre, consegues falar nestas coisas de um modo que até eu entendo….
    Eu gosto imenso deste teu tipo de posts.

  2. miguel Says:

    Obrigado emiele. Faltou explicar algo que para mim ficou subentendida mas se calhar imperceptível. É que quando os bancos comerciais optam por depositar o seu excesso de liquidez no banco central, a uma taxa de juro mais reduzida, do que colocá-la no mercado interbancário – é aqui que se definem as taxas Euribor – por não terem confiança nos outros bancos, provocam pressão altista nas taxas já que, por um lado, há liquidez “reduzida” (apenas aliviada pelas sucessivas intervenções dos bancos centrais) e, por outro, quem empresta quer ser [mais] recompensado pelo risco que corre em emprestar dinheiro a outros bancos.

  3. miguel Says:

    E não sei se hoje não teremos um crash à moda antiga. O último foi em 1987 quando o mercado americano caiu mais de 22%. A situação permanece péssima com os mercados a derreterem. Todos perdem cerca de 10%. Os EUA preparam-se para abrir em forte queda. Os futuros registam perdas substanciais depois da “desgraça de ontem”.

    O governo norte-americano prepara-se para realizar duas operações “dramáticas”: garantir toda a dívida bancária (dos bancos a terceiros) e assegurar todos os depósitos do sistema bancário americano.

    Noutras frentes, o barril do petróleo cotava há instantes $78,06, ie, uma queda de cerca de 50% desde os máximos de Julho deste ano (há apenas 3 meses atrás). Terá mudado assim tanto o mundo desde então?!

Os comentários estão fechados.