A felicidade de S.

S. era a mais simpática na recepção. De longe. Aparentemente genuína e aquela a quem eu achava mais piada. Quando por ali passava, e ela estava de serviço, raramente passávamos do cumprimento ocasional exceptuando uma única vez. Sem qualquer aviso, após o corriqueiro “boa tarde” irrompeu num pranto desmedido. E desabafou. Mais e mais. Muito mais do que eu quereria [saber]. Serenou depois de falar uns bons vinte minutos. Pediu-me desculpa à saída sem que houvesse qualquer necessidade para tal. Nunca me interessou a vida alheia, por feitio. Mas jamais recusei emprestar um ombro a quem conhecesse minimamente (e mesmo desconhecidos, confesso, desde que para tal tivesse tempo).

Hoje, ao passar por lá, cumprimentei-a, como sempre, e perguntei-lhe como estava. Ao que me respondeu:

– Lá em casa?

– … (nem me deixou responder que não)

– Está tudo bem. Agora. O meu marido pergunta-me sempre “queres ter razão ou ser feliz?” e realmente acho que tem razão. – e sorriu de seguida.  Não sei se o olhar perscrutador procurava, em vão, qualquer sinal de aquiescência ou não.

Despedi-me, arrepiado. Cada qual é feliz à sua maneira.